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   21-05-2006 contacte-nos | pesquisa 
 
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Carboeurope: Projecto europeu investiga sumidouros florestais

Uma equipa de investigadores está a analisar as florestas portuguesas com o objectivo de medir a influência que podem ter na retenção do carbono. O estudo, que incide sobre um eucaliptal em Pegões, um montado de sobro e uma zona de pastagem perto de Évora, está integrado no Carboeurope, um programa europeu que visa estudar o efeito de sumidouro das florestas no combate às alterações climáticas. Em Portugal, estão envolvidos o Instituto Superior de Agronomia (ISA), o Instituto Superior Técnico (IST) e a Estação Florestal Nacional.

O projecto está no terreno desde 2004 e tem a duração de cinco anos. As primeiras conclusões apontam para uma maior retenção de carbono em manchas de pinhal e eucalipto, como é o caso da Herdade de Espirra, em Pegões. “Aqui os valores anuais da retenção de carbono são da ordem dos 600 gramas de carbono por metro quadrado”, especifica João Santos Pereira, especialista florestal do ISA e coordenador nacional do projecto. “Pelo contrário, um montado alentejano indica um sumidouro cinco vezes menor, que facilmente passará a fonte em anos de condições adversas”.

Em cada uma das propriedades envolvidas no estudo do Carboeurope foi colocada uma torre de 32 metros, que tem a capacidade de medir a turbulência atmosférica e a interacção com a floresta. A torre tem montado um equipamento que mede em contínuo, a uma razão de 20 valores por segundo, as trocas gasosas, como o transporte de CO2 e de vapor de água, que se operam acima da copa das árvores.

A contabilização dos sumidouros florestais nas quotas de emissão de carbono foi uma exigência dos Estados Unidos durante as negociações do protocolo de Quioto – que este país acabou por não ratificar – mas no entanto ainda não se conhecem bem os efeitos que realmente podem ter na atenuação do efeito de estufa, e consequentemente das alterações climáticas.

É precisamente o que este projecto pretende descortinar, estudando ao pormenor a influência das áreas florestais na atmosfera. O objectivo, a nível europeu, é implementar um sistema de monitorização. “Pretende-se fazer uma análise científica sobre o sequestro de carbono nas florestas, saber se realmente acontece ou não e a sua ordem de grandeza”, explica João Santos Pereira. “Apenas com vários anos de estudo é possível estabelecer modelos”.

Seca pode ter efeitos negativos

A capacidade de retenção de carbono das florestas varia e depende de vários factores, a começar pelas condições climatéricas. O montado de sobro que está a ser analisado em Évora “pode vir até a revelar-se uma fonte de carbono se tivermos mais um ano de seca como este”, frisa o especialista do ISA. Os incêndios, que têm provocado a maior devastação em Portugal desde 2003, acabam por anular o efeito de sumidouro das florestas.

“Os incêndios são um dos principais factores limitantes do sequestro de carbono pelas florestas. Funcionam como cortes prematuros que colocam a floresta na fase de regeneração, naturalmente pouco produtiva”, explica João Santos Pereira. Por outro lado, “ainda que as árvores não sejam totalmente consumidas pelo fogo, os incêndios induzem a emissão de CO2 e outros gases de estufa e de partículas de negro de fumo (black carbon, com uma contribuição adicional para o aquecimento da atmosfera)”.

A quantidade de GEE’s (Gases com Efeito de Estufa) libertados pelos incêndios de 2003 em Portugal equivale a 50% das emissões do sector nacional dos transportes nesse ano, segundo um estudo do ISA. Um número de peso, se considerarmos que os transportes são o sector que mais tem aumentado as emissões na última década e que é considerado neste momento o maior obstáculo ao combate das alterações climáticas.

Pinhais e eucaliptais retêm mais carbono

A maior parte da floresta portuguesa é composta por pinhais, montados (sobreiro e azinheira) e eucaliptais, que cobrem mais de 80% da área da floresta produtiva do país. Santos Pereira afirma que, “uma estimativa grosseira, esta floresta terá contribuído em 1995 para um sumidouro líquido anual de carbono da ordem dos 12 ou 13% das emissões de GEE do país”.

Os primeiros resultados dos estudos feitos no âmbito do Carboeurope em Portugal parecem indicar que os eucaliptos, espécies de crescimento rápido e normalmente associadas à indústria da celulose, assim como os pinheiros, são mais eficazes enquanto sumidouros. “A elevada capacidade de retenção de carbono em pinhais e eucaliptais torna-os valiosos para o comércio de emissões”, reconhece o investigador, ressalvando que a vantagem a longo prazo é relativa se se tiver em conta o reduzido intervalo com que a biomassa das árvores é removida (cada 12 anos, em média, no eucaliptal).

“Os eucaliptos são árvores de crescimento muito rápido e absorvem o carbono enquanto crescem”, explica Gabriel Pita, investigador do departamento de Mecânica do IST e coordenador do projecto em Pegões. Mas, se por um lado são eficazes como sumidouro, há que ter em conta outros factores ambientais, como “o elevado consumo de recursos hídricos” desta espécie florestal, introduzida no país para a produção de pasta de papel.

Estes resultados não significam, porém, que no futuro o país seja totalmente coberto de eucaliptos, em nome do protocolo de Quioto. “Os projectos de sequestro de carbono terão que obedecer a critérios de gestão sustentável e ter em consideração a preservação da biodiversidade e de outros valores ambientais”, sublinha Santos Pereira. De qualquer forma, apenas poderão gerar direitos de emissão as acções de florestação e de reflorestação que tenham sido feitas depois de 1990. Estima-se que as florestas europeias sequestrem anualmente 124 gramas de carbono por cada metro quadrado de área florestal.

Carla Gomes
QUERCUS Ambiente nº. 15 (Setembro/2005)